Conseguiremos nós hoje, cristãos do século XXI, conceber um culto sem a participação congregacional, especialmente através do canto? Será difícil!
Contudo, antes da Reforma, era assim, pois não era permitido aos leigos cantarem na igreja. Durante o ato de culto os fiéis deviam permanecer em silêncio enquanto a música era executada por profissionais, sacerdotes e cantores, interpretada através de instrumentos complexos como os órgãos de tubos e entoada em latim, uma língua que o povo não entendia. O que, aliás, se passava também com o resto do serviço religioso.
Foi durante o século XVI que os reformadores envolveram o povo no ato de culto especialmente através do canto congregacional. Para esse fim compuseram melodias simples, fáceis de cantar, que estivessem ao alcance de todos. Contudo, embora os temas melódicos fossem simples, através da sua letra eles eram o veículo de mensagens teologicamente fortes! Assim, como a maioria das pessoas do povo no século XVI eram analfabetas, o canto tornou-se a forma privilegiada e mais efetiva de catecismo. Enquanto louvavam a Deus, os cristãos aprendiam acerca d’Ele.
Esta grande mudança deveu-se aos reformadores, especialmente a Martinho Lutero, que no ano de 1526 reorganizou o culto alemão. A sua ideia era que a congregação se devia envolver cada vez mais no ato de culto, e cantar era a melhor forma de o fazerem.
Assim, o grande reformador começou a criar hinos para este efeito, escolhendo alguns Salmos e adaptando-os à música. Por vezes compôs ele próprio melodias para esses hinos ou fez arranjos em músicas existentes sendo-lhe atribuídos pelo menos 36 hinos. Estes cânticos eram entoados nos mais diversos lugares e não exclusivamente na Igreja, tornando-se uma forma poderosa de propagação do Evangelho.
Os seus hinos rapidamente tiveram um grande impacto entre o povo de Deus, talvez mesmo mais, naquela altura, do que tradução da Bíblia. Aqueles que foram os seus maiores oponentes e críticos aperceberam-se desde o primeiro momento da importância dos seus cânticos e o Dr. Eck, o principal opositor a Lutero, chegou a afirmar que “a Reforma desenvolveu-se mais através dos hinos de Lutero do que através dos seus escritos”
Um dos seus hinos mais conhecidos pela cristandade, e que se mantém atual até aos dias de hoje é aquele que tem por título “Ein feste Burg ist unser Gott”, traduzido em português com o título “Castelo Forte é nosso Deus”, incluído no “Cantor Cristão” com o número 323.
Baseado no Salmo 46, este hino é a celebração do poder soberano de Deus sobre todas as forças terrenas e espirituais, e da segurança que temos n’Ele devido à obra de Cristo. Após a sua publicação, tornou-se extremamente popular por toda a Europa Reformada.
James Montgomery Boice, um ilustre teólogo reformado escreveu:
“Quase toda a gente associa Martinho Lutero ao livro de Romanos, particularmente Romanos 1:17 “O justo viverá pela fé”. Tendemos a esquecer que Lutero se converteu não apenas pelo seu estudo de Romanos, mas também pelo seu estudo de Salmos. Lutero ensinou os Salmos durante anos e amava-os muito. O seu salmo favorito era o 46. Diz-se de Lutero que houve alturas durante as épocas mais negras e perigosas da Reforma, em que ele se sentiu desencorajado e deprimido. Contudo, em tais momentos ele virava-se para o seu amigo Philipp Melanchthon e dizia: “Anda, Philip! Vamos cantar o Salmo 46”. E os dois cantavam-no na versão do próprio Lutero.”
Luois Benson, um pastor Presbiteriano de Filadélfia, escritor reconhecido na área da hinologia escreveu acerca deste hino:
“Era a “Marselhesa" da Reforma. Foi cantado em Augsburg durante a Dieta e em todas as igrejas da Saxónia, frequentemente sob o protesto do sacerdote. Foi cantado nas ruas; e, assim se diz, confortou os corações de Melanchtonm, Jonas e Cruciger, ao entrarem em Weimar, quando foram banidos de Wittenberg em 1547. Foi cantado pelos pobres emigrantes protestantes a caminho do exílio e por mártires na sua morte. Foi tecido na teia da história dos tempos da Reforma, e tornou-se o verdadeiro hino nacional da Alemanha Protestante.”
Como já foi referido, o pano de fundo da composição deste hino foi a época agitada da Reforma Protestante do século XVI. Contudo, não se sabe ao certo se houve algum incidente em particular que tenha inspirado Lutero à sua composição.
Alguns estudiosos associam a composição do hino a um período de grande sofrimento físico. Ele esteve doente com a sua primeira crise de pedra nos rins, no mesmo ano em que a praga de 1527 assolou a Europa. O seu filho mais velho, com cinco anos na altura ficou tão doente que pensaram que ele ia morrer.
Outros investigadores pensam que o hino foi escrito aquando da cerebração dos dez anos da afixação das 95 teses na porta da capela do castelo de Wittenberg. Nessa altura, ele escreveu a um amigo: “O nosso grande conforto, garantia de que podemos ficar firmes perante os ataques do diabo, é que temos a Palavra de Deus que salva as almas mesmo que os nossos corpos sejam despedaçados. Ora por nós, para que possamos com bravura e com a ajuda da mão de Deus, derrotar o poder do diabo seja através da vida, seja através da morte.”
Outras teorias existem sobre o evento que terá estado por trás da composição do hino. Contudo, parece-nos que mais do que um evento específico, foi a vida do próprio autor a inspirá-lo para a sua criação. Os tempos da Reforma Protestante na Europa foram marcados por perseguições, sangue, autos de fé. Lutero viu a sua vida em perigo diversas vezes e sobreviveu refugiado na fortaleza de Warteburg onde se dedicou à tradução da Bíblia para a língua alemã. Ali lhe chegavam as notícias da morte de tantos filhos de Deus e tudo isto o terá feito viver intensamente a verdade contida no versículo 1 do Salmo 46: “O Senhor é o nosso refúgio e fortaleza, socorro bem presente na angústia.”
O hino atravessou quatro séculos e ainda hoje, quando o cantamos, não conseguimos deixar de sentir o arrepio provocado pelas suas palavras! O canto congregacional tem este efeito em nós, une-nos na adoração e enche a nossa alma com a verdade da Palavra de Deus. Os Reformadores tinham esta percepção, e será bom que ela não seja perdida. Cada dia se cantam menos hinos nas igrejas, os quais vão sendo substituídos por outros cânticos de teologia light e muitas vezes incorreta, eventualmente mais de acordo com a forma ligeira de se viver no atual século.
Dina Marques
In Lar Cristão, #170